COZINHA ARQUEOLÓGICA (4)

E agora vem a parte que para mim é mais interessante, pois levanta o véu das receitas mais apreciadas do Mundo Antigo, e tão nossas desconhecidas! Só precisamos "do avental e do forno"!

"É pois urgente que, como elemento de crítica, reconstituamos a cozinha antiga.
Nada mais fácil, tendo um avental, um forno e a Arte Culinária de Apício.
Eu não possuo, nem conheço este tratado venerável. Mas, através de ténues e modestas leituras, tendo recolhido algumas receitas, suficientes para aqueles espíritos curiosos que queiram investigar sem cansaço, sem extensos estudos, esta feição do génio antigo.
Marcial ou Aulo Gélio, não recordo qual, assegura que um bom jantar pode constar de um peixe, um bolo ou pudim e uma garrafa de vinho. Era este um jantar muito usual na Grécia, e depois em Roma, para a gente azafamada ou sóbria, que queria comer rapidamente, sem despesa e sem pesadume. Equivale ao jantar moderno, em Paris ou Londres, engolido à pressa antes do teatro, mesmo no mundo do luxo, e que se compõe de uma sopa, de uma costeleta, de uma fruta e meia garrafa de Bordéus.
Pois eu sei como se cozinhava este jantar em Atenas ou Roma, aí pelos tempos de Augusto e ainda mesmo sob os Antoninos. O peixe, por exemplo, pode ser uma taínha. E aqui está como ela se prepara, ó estudiosos! Tomai essa taínha. Escamai e esvaziai. Preparai uma massa bem batida, com queijo (que hoje pode ser parmesão), azeite, gema de ovo, salsa e ervas fragrantes, e recheai com ela a vossa taínha. Untai-a então de azeite e salpicai-a de sal. Em seguida assai-a num lume bem forte. Logo depois de bem assada e alourada, humedecei-a com vinagre superfino. Servi,  e louvai Neptuno, Deus dos peixes.
O outro Prato, pois que se trata de um festim ligeiro, pode ser um queque ou pudim feito pela receita do ilustre  mestre Crisipo. Tomai duas ou três alfaces, bem repolhudas. Lavai e enxugai. Deitai vinho dentro de um largo almofariz, e pisai, mortificai nele as folhas de alface. Passai por um ralo para que todo o líquido se escoe; e à alface assim amachucada no vinho, juntai farinha de trigo, uma pouca de manteiga e pimenta. Pisai de novo, até obterdes uma massa firme. Dai a esta massa a forma de um bolo chato e redondo. Colocai-o na frigideira com azeite, e frigi num lume vivo. Toda a Antiguidade considerou este bolo uma delícia e chamava-se "catillus ornatus". Não sei se gostareis. Era um prato dilecto de Pompeu.
Podemos depois findar, se quiserdes, pela famosa "empada de rosas". Era um acepipe muito usado em todas as festas do culto de Vénus. Para o realizar, descei ao jardim, colhei as rosas mais largas e mais cheirosas. Pisai-as no almofariz. Juntai miolos de galinha, de pombo e de perdiz, muito bem cozidos, depois de os terdes desembaraçado das mais pequeninas fibras. Acrescentai ainda duas gemas de ovos, um fio de azeite puro, pimenta e vinho velho, de Malvasia. Depois de bem mexido tudo, até conseguir uma massa leve e fina, deitai numa caçarola nova de barro e colocai sobre um fogo lento e contínuo. Logo que a superfície se aloure, servi. Por toda a sala se espalhará um aroma de rosa, e a vossa alma bendirá Apício Célio, criador desta maravilha.
E já que tivémos rosas em empada, por que não beberíamos o famoso vinho rosado? As receitas para o fazer diferem,  mas a mais simples e rápida é a de Pausânias. Desfolhai um ramo de rosas, guardai-as durante um dia e deitai-as dentro de dois ou três litros de vinho velho (de Bordéus, hoje). Ao fim de três ou quatro semanas, juntai um arrátel de mel. E se pensais que o gosto e o saber de Heliogábalo podem ser seguidos com confiança, acrescentai ao vinho, horas antes de o beberdes, um punhado de pinhões esmagados, como fazia esse esplêndido e imperial estróina.
Aí está, pois, um muito fácil e acessível jantar greco-latino"...

E a prosa queiroziana prossegue dando-nos conta do ambiente ou cenário em que o festim se desenrola, para que não falhe nenhum pormenor nesta refeição. Fala ainda das Simposíacas de Plutarco, "um tratado superior do regime intelectual a seguir durante um banquete".
São só mais duas páginas, mas não as reescrevo por dois motivos:
- não vos quero maçar mais;
- não quero ofender os direitos de autor.
Se alguma leitora ou leitor estiverem interessados nesta última parte, é só pedirem para o e-mail do blog, que eu enviarei com muito gosto para o vosso endereço electrónico.

 Notas: Um arrátel corresponde a 459 gramas.
No texto, quando Eça se refere a lume intenso, julgo que se trata de forno.
A avaliar pela minha experiência com a Tigelada à moda da Beira Baixa, a caçarola de barro para a Empada de Rosas, devia ser prèviamente aquecida no forno, e só depois seria introduzida a massa.
Isto para o caso de haver por aí algum corajoso, curioso e douto, como diria Eça de Queiroz, que queira experimentar, (he, he) !!!

Desejo-vos uma boa semana, com tudo a correr pelo melhor.
Beijinhos da

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

COZINHA ARQUEOLÓGICA (3)

Ora vivam! Cá estou eu para vos mostrar mais um bocadinho (para não vos maçar muito, he,he!) da Cozinha Arqueológica de Eça de Queiroz.
Hoje, o tema que ele apresenta, tem a ver com a mesa e as mesas; com as regras de etiqueta que já naqueles primórdios era tão importante; e com alguns menus da época.

" Também, por isso, não há detalhe exterior que nós não conheçamos, desde que se trate de um jantar romano - sobretudo nas casas luxuosas. Logo as salas nos são familiares, com os seus soalhos de mosaico ou de madeiras preciosas incrustadas de pedras faiscantes, ou de mármore numídico que se juncava de violetas e rosas; com os seus tectos de cristal, ou feitos de lâminas, para que de entre elas pudessem chover sobre os convivas aromas ou flores...
Tudo isto é conhecido, assim como as mesas, que se mudavam a cada serviço, umas de cedro, outras de marfim, outras de limoeiro com relevos de ouro, sustentadas por pés de ónix. Uma dessas mesas magníficas custara a Cícero, simples advogado sem grande fortuna, perto de quarenta contos. Mas que é isso em comparação com os tapetes de Élio Vero, um elegante enfastiado e doente, que valiam cada um cento e vinte contos? Do esplendor das pratas e das baixelas, e dos seus preços esmagadores, contam superabundantemente os coscuvilheiros e anedóticos historiadores da História Augusta.
Sobre a etiqueta dos banquetes temos também uma ciência segura; porque ela era tão essencial, de uma tão séria influência na vida pública, que Paulo Emílio, o vencedor de Perseu, considerava igualmente necessário ao homem de Estado, ao verdadeiro Romano, o saber organizar uma batalha e dispor um festim. Por isso os tratados abundam, marcando rigorosamente as horas mais favoráveis para um jantar delicado, o número dos convivas (que nunca deve ser inferior ao das Graças, nem superior ao das Musas), as conversações mais conducentes a uma boa e ditosa digestão (evitando sempre tudo o que se refira a processos ou negócios), a duração dos serviços, a sequência dos vinhos, o momento dos coros e da música, a ordem das saúdes oficiais e íntimas, os lugares de honra (os lugares consulares) nos triclínios, o modo de usar as coroas de flores e a qualidade dos presentes que à sobremesa o anfitrião distribuía ao som das harpas.
E do jantar propriamente, possuímos centenas de menus. Começava-se sempre simbolicamente pelos ovos: ab ovo. E desde logo aqui aparece, a meu ver, a lamentável deficiência da nossa erudição. Nós desconhecemos como se cozinhavam os ovos - ou, pelo menos, ignoramos o gosto, o sabor especial desses ovos iniciais. E, de facto, ignoramos o paladar de todos os pratos da alta cozinha clássica.Neste nosso fecundo período de reconstituições históricas, ainda não apareceu um cozinheiro bastante douto, que acendesse os seus fornos e refizesse um jantar romano, segundo as receitas da Arte Culinária do grande Apício. Os arquitectos têm reconstruído, com um saber forte e sagaz, os templos, as casas de cidade e de campo, as ornamentações dos jardins, os próprios sistemas de esgotos. A pintura tem ressuscitado em telas tão minuciosas que cada pincelada resume um tratado, todos os aspectos do viver greco-latino: as ruas, os mercados, as lojas; uma primeira representação num teatro; a Via Ápia, à tarde, à hora do passeio; a leitura pública de um poeta no Foro; uma sesta luxuosa nas Termas... Armas, carruagens, trajes, mobílias, jóias, tudo está modelado com paciente perícia. Toda a civilização, material e sumptuária da Antiguidade, a podemos ver, palpar, usar. Só não tratámos ainda de conhecer o sabor dos petiscos que comeram Lúculo ou o vasto Vitélio.
Há aqui uma lacuna crassa. E tanto maior quanto o sabor de um pitéu nos dá uma ideia mais completa do povo que o prefere, do que a forma de uma lança ou de um jarro. O homem põe tanto do seu carácter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte. O Parténon, a Vénus de Milo e as Anacreônticas dão menos ideia da doçura, da graça, da delicadeza, da ligeireza dos Atenienses, do que aquela sua sobremesa tão predilecta e que consistia em maçãs cozidas desfeitas em mel, depois cozinhadas em folhas de rosa. E não basta afirmar doutoralmente que o imperador Maximino preferia o pato, que Alexandre Severo só se alimentava de lebre, que Augusto era um amador constante de pescadinhas, que Albino comia quatrocentas ostras, que Adriano tinha por prato favorito a empada de pavão, que Tibério de deleitava no pepino, que na mesa de Górdio II havia todo o ano maravilhosos melões e que Tácito amava ainda mais a salada do que a verdade. O interessante seria conhecer o preparo e o sabor destes pratos diversos, e reconstituir, com todos os condimentos, as pescadinhas de Augusto e o pepino de Tibério.
Logo por esta paixão do pepino está Tibério explicado, se acreditarmos no ilustre Dífilo que, mais que nenhum antigo, possuiu a ciência dos legumes e que afiança que o pepino produz "bílis, sentimentos amargos e misantropia". Nesta apreciação do pepino está Tibério todo revelado. E o povo romano não se revela ele também, todo inteiro, naquele petisco chamado moretum, que era uma paixão nacional, e sobre o qual Virgílio, como poeta nacional, rimou um poema?
O moretum era um guisado, uma moxinifada genial, em que entrava galinha, peixe, queijo, frutas, legumes e carne migada! E tudo isto se fundia, se unificava, fazia um petisco imortal. Quem não vê aqui manifestar-se o próprio génio de Roma, cujo esforço foi sempre criar a unidade na universalidade? O moretum é o mais profundo e eloquente símbolo da história política e social do Império."

Amanhã terminarei a partilha convosco,  deste livrinho que tanto me deliciou.
Depois o Meu Estaminé fechará por uns tempos. Está na altura de ir colher as uvas, os fígos , os marmelos e fazer as compotas do costume! Apanhar o louro para secar, o alecrim e a alfazema.
De tudo isso vos darei conta quando regressar. E prometo que vos darei umas receitas de Eça de Queiroz de que gostarão, certamente! Será assim como que um prémio para a paciência que tiveram com estes artigos tão extensos!

Beijinhos da

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

COZINHA ARQUEOLÓGICA - 2

Então, cá vai mais um pouco da Cozinha Arqueológica de Eça de Queirós.
Ao ler o que ele escreveu no séc. XIX, reconheço hábitos que ainda hoje permanecem em pleno séc. XXI !

Segundo ele, "a mesa constituiu sempre um dos fortes, senão o mais forte alicerce das sociedades humanas. Já os Gregos diziam, que a mesa é a alcoviteira da amizade! Não só da vida íntima, mas na vida pública das nações, o jantar constitui a melhor e a mais solene cerimónia que os homens acharam para consagrar todos os seus grandes actos, imprimir-lhe um carácter de união e de comunhão social. Outrora não havia fundação de cidade, tratado de paz, instalação de magistratura, que não fosse acompanhada e corroborada por um festim. (Onde é que eu já vi isto? He,he!) Ainda hoje (1893) se não cria um grémio ou um sindicato, sem que os sócios jantem, cimentando os estatutos com champanhe e túbaras. As próprias relações do homem com a divindade estabeleceram-se sempre através da comida. O sacrifício da rês, sobre a ara, era uma espécie de merenda espiritual, em que o Deus, atraído pelo cheiro da carne assada, descia e se tornava acessível ao crente, partilhando com ele as vitualhas santas. O cristianismo, neste ponto, concordou com o paganismo - e a missa, pela consagração do pão e do vinho, é um verdadeiro banquete celebrado entre a terra e o céu.
Ora porque a cozinha e a adega exercem uma tão larga e directa influência sobre o homem e as sociedades, é que eu estranhava há pouco, folheando Ateneu, que a erudição arqueológica não estudasse de um modo mais experimental e íntimo a cozinha dos antigos, para lhes aprofundar mais completamente a estrutura moral. Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. O carácter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu modo de assar a carne. Um lombo de vaca preparado em Portugal, em França ou Inglaterra faz compreender talvez melhor as diferenças intelectuais destes três povos, do que o estudo das suas literaturas. O macarrão é por si só o mais instrutivo comentário da história das Duas Sicílias. E, sendo esta uma verdade admitida já desde Montesquieu, porque se tem descurado tão levianamente o estudo prático da culinária greco-latina?
Decerto, não são os documentos que faltam. A mesa e os seus prazeres foram um dos assuntos sobre os quais se exerceu, com mais afinco, o génio poético e mesmo filosófico dos Antigos. Horácio, filho dedicado do Epicuro, não cessou de cantar honestamente a garrafa e o prato. Todo um livro dos Epigramas de Marcial é consagrado a celebrar o que se come e o que se bebe. Com o mesmo cálamo que traçava a Eneida, Virgílio compôs um poema sobre os doces de sobremesa. O mais severo dos homens, Catão, dedica páginas graves à couve, às suas variedades, às suas virtudes, à sua acção nos costumes. De uma simples ceia, Petrónio tirou todo um livro. E a História do Mundo, do sábio Plínio, é quase uma história universal dos comestíveis."

Como vêem, Eça queria era as receitas antigas experimentadas e servidas ao jantar, para poder avaliar dos sabores daquilo a que chamou Cozinha Arqueológica. Para isso teria de ter nascido um século depois...
Só há poucos anos é que temos vindo a descobrir antigos produtos, antigos sabores e a reconstituir antigas receitas,  que com o tempo foram caindo em desuso e deixaram de ter memórias para nós.
Amanhã continuarei com este tema, para quem gostar e quiser passar por cá.
Obrigada a todas as amigas que deixaram os seus comentários. Se não fossem eles, talvez eu não voltasse ao assunto por pensar que não vos tinha agradado.
Tenham um bom fim-de-semana. (Detesto a sigla...faz-me lembrar outra coisa, he, he!)
Beijinhos da

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

"COZINHA ARQUEOLÓGICA" - EçA DE QUEIRÓS

Hoje venho falar-vos de um livrinho muito interessante que descobri há dias numa feira do Livro (no Inatel de Oeiras) e que comprei por 2 euros. A Cozinha Arqueológica de Eça de Queirós.
Saíu  pela primeira vez na Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro, em três artigos.
Eça tinha acabado de ler três livros de Ateneu, escritor, pensador, filósofo que viveu nos tempos de Marco Aurélio e Sétimo Severo, na Roma Antiga.
Para Eça, estudavam-se as civilizações antigas, mas não se sabia nada àcerca daquilo "que melhor revela o génio de uma raça: a Cozinha!".
Parece que Ateneu se dedicava a divulgar "toda a sorte de noções miudas, e mesmo caturras, sobre boas letras, história, desporto, gramática, etiqueta, comestíveis, etc., numa vasta obra intitulada Deipnosophistae ou Doutores Jantando". Ele convidava Doutores, Poetas, Filósofos... para um banquete em sua casa. "Estes Doutores que jantam, vão ao mesmo tempo conversando, com gravidade romana e volubilidade grega, sobre toda a coisa sabível, desde as magnificências de Homero até às propriedades da abóbora".
Ora o que mais entusiasmou Eça, foram "as noções e notícias da cozinha grega, romana e alexandrina, as três grandes escolas de cozinha da Antiguidade, que ele nos conservou com enternecido cuidado"...
Os romanos gostavam de comer bem. Houve até quem afirmasse "que Roma pereceu pela barriga".
"Já a Grécia mesma, que era sóbria por temperamento e por educação, elevou a uma alta dignidade a arte da cozinha. Platão não duvidou de a equiparar à oratória: e num dos seus diálogos magníficos envolve nos mesmos louvores os que guizam e apresentam bem as ideias e os alimentos. Tal era a cultura, o fino engenho, a influência social dos cozinheiros, que a Grécia, resumindo em símbolos compreensíveis e populares as glórias da sua civilização, celebrou ao lado dos seus sete sábios os seus sete cozinheiros.
O maior deles era Aegis, de Rhodes, o único mortal que tem sabido assar sublimemente um peixe. Outro era Nereu, de Quio, cuja sopa de congro foi cantada por poetas e recompensada em toda a Ática com coroas cívicas. Outro ainda, Aftonetes de Atenas, levantou a tal perfeição a ciência dos molhos, que para o possuir como chefe de cozinha, os reis travaram entre si longas guerras..."
Á medida que Roma alargava os seus domínios," iam crescendo as escolas de cozinha - mais numerosas, já no tempo de Cláudio, do que as de filosofia e de gramática.
O ofício de cozinheiro tornou-se mais rendoso e um dos mais privilegiados. Era quase um cargo público pelas honras que conferia - e chegou a existir uma corporação de cozinheiros do Estado. Sob Alexandre Severo, os governadores das províncias recebiam, ao partir, entre outras dotações de baixelas, de cavalos, de armas de luxo, um cozinheiro, um cozinheiro oficial, que deviam restituir ao Estado quando findava o período do seu governo.
Desses cozinheiros, os mais ilustres foram os Apícios, que formaram uma verdadeira dinastia, desde Sila até Trajano. O último Apício, o mais célebre, redigiu enfim o código supremo da cozinha, no seu livro monumental Da Arte Culinária.
Pouco a pouco, a vida identifica-se com a mesa; e a palavra convivium, já nos dias de Cícero, significava indiferentemente a sociabilidade moral, que liga os homens, e o banquete materialmente em torno do mesmo guisado"...

 
Aprendi muitas coisas com esta pequena obra de Eça que, pela sua escrita é um prazer ler. Trouxe-o aqui para todas as pessoas que gostam de saber mais e não têm acesso a estes livros algo raros.
Se gostarem deste tema e não o acharem "chato" (desculpem o termo) podemos continuar esta "conversa" na próxima vez. Eça também teve de fazer 3 artigos na Gazeta de Notícias, he,he!
Todas as citações de Eça de Queiroz estão entre "aspas".

Hoje dedico estas páginas a todos os Cozinheiros com quem tenho aprendido. Primeiro, a Maria de Lurdes Modesto com quem iniciei a minha aprendizagem. Depois com o Chefe Silva que me ajudou a aprimorar a arte de ser boa cozinheira em minha casa. Muito mais tarde com todas as "blogueiras" que descobri na Net.
Ultimamente com o Jamie Oliver e os seus livros...

A minha homenagem especial para duas destacadas "bloggers" :

***** Leonor de Sousa Bastos pelo seu livro Flagrante Delícia 
                                  e
***** Mónica Pinto pelo seu Restaurante  Pratos e Travessas

Para todos, um abraço da 


Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

PEIXE ESPADA PRETO Â MODA DA MADEIRA

Devia ter começado por SAUDADES... porque estou mesmo com saudades dos dias passados na bela Ilha das Flores, berço de minha avó materna e onde ainda tenho alguns parentes que muito prezo.
Terra de maravilhosos Jardins, mas onde as árvores de cada rua florescem em cascatas de cores magníficas!
Impossível é esquecê-la! E para a recordar em todo o seu esplendor, nada como reproduzir um prato típico da Ilha: Peixe Espada Preto com Banana e Molho Acerejado.

Este fim de semana, comprei um peixe espada preto grosso e partiram-mo às postas largas para grelhar.
Cheguei a casa, lavei-o e dividi-o ao meio. Metade foi para o congelador para outra refeição e na restante pus sal e reservei para grelhar daí a cerca de uma hora (e tal).
Entretanto fui inventar um molho acerejado parecido com o que me serviram lá, nos Restaurantes.
No Restaurante o Pescador, à beira da praia de Maxico, ainda perguntei aos empregados que eram muito simpáticos, mas a resposta foi que o patrão dizia que "o segredo é a alma do negócio"!...
He, he! Mal sabia ele que eu não ia descansar sem fazer também "o meu"!
Lembram-se da receita do Doce de morangos à moda da Nigella que vos dei aqui há tempos?
Os morangos já se foram, mas ainda sobrou uma boa porção de geleia (molho) no fundo de um frasco que estava no frigorífico.

Molho Acerejado Agridoce

1 cháv. de café de geleia de morango (alperce , framboesa ou outro)
2 colheres de sopa de vinagre balsâmico

Misturar bem e provar. Se estiver muito doce, juntar um pouco mais de vinagre balsâmico para que fique com um sabor levemente ácido. Se a geleia for muito grossa é melhor diluir numa colherinha de água morna.
Reservar.

Aquecer bem o grelhador (o meu é eléctrico e bastam 6 minutos a aquecer). Ponha um pouco de azeite ou óleo num pires e "barre" as postas de peixe. Quando o grelhador estiver bem quente coloque o peixe e deixe grelhar bem, de um lado e de outro. Retire do lume e coloque nos pratos de servir.

Banana Caramelizada simples

2 bananas médias
Vaqueiro líquida qb.

 Descasque as bananas e retire os fios laterais. Parta-as ao meio no sentido longitudinal.
Aqueça bem uma frigideira de fundo não aderente com um pouco de margarina líquida.
Quando estiver bem quente, coloque as metades de banana na frigideira e deixe fritar
por uns minutos até caramelizar. Vire as bananas com a ajuda de uma espátula e deixe caramelizar do outro lado. (A banana já é doce, não precisa de açúcar).

Retire do lume e coloque cada banana em seu prato, ao lado do peixe.
Regue por cima com o Molho Acerejado e sirva quente.
Pode acompanhar com legumes cozidos ou com batatas cozidas e salada mista.
É um prato muito nutritivo e bastante económico.

Agora vejam lá a minha decepção: não consigo meter a fotografia que fiz para ilustrar esta receita!
Houve alguma actualização de programas no computador e o sistema de colocação de fotos foi alterado.
Acontece que, como eu sou "muito" entendida nestas coisas... não sei o que hei-de fazer, he,he!
Mas se o mafarrico me queria aborrecer, está bem enganado, porque vai mesmo assim.
Prometo que assim que descobrir como se faz, a coloco aqui para vocês verem, porque eu acho que ficou melhor do que a do Restaurante que já vos mostrei! (He,he, "presunção e água benta, cada um toma a que quer").

Beijinhos da 

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

OS OVOS



Hoje venho falar-vos àcerca dos OVOS.
Claro que, sendo eu uma leiga no assunto, só posso partilhar convosco a minha experiência e algumas achegas que tenho lido, mas o assunto é importante.
São um produto que não pode faltar na nossa cozinha!
Há que mantê-los sempre frescos. Num programa de rádio (no tempo em que eu ainda tinha ouvidos!) ouvi uma médica dizer que os ovos deviam ser guardados no frigorífico porque o frio elimina as salmonelas.
Há ovos de casca branca ou acastanhada e há quem pense que estes últimos são os melhores. Mas não. São todos igualmente bons se as galinhas forem saudáveis!
Já devem ter ouvido dizer que os animais também têm stress. Pois as galinhas não fogem à regra.
Até nós, com esta vida agitada nos "stressamos"! E depois, vá de o organismo segregar toxinas que nos envenenam o sangue e nos provocam mal estar e doenças.
Com os animais irracionais acontece exactamente a mesma coisa.
Se as galinhas forem criadas ao ar livre nas quintas, a sua carne e os seus ovos serão mais saudáveis e não nos contaminarão com toxinas.
O mesmo acontece com as galinhas de capoeira dos quintais.
Já com as galinhas dos aviários é preciso ter mais cuidado. Os animais estão mais condicionados em espaço e atropelam-se uns aos outros e "bicam-se" e são tantos que nem têm espaço para pôr as duas patas no chão! E os excrementos ácidos, com a falta de higiene fazem-lhes feridas nas patas por onde entram micróbios e bactérias... E as poedeiras, encurraladas em "gavetas" em que à frente têm comida e atrás têm um tapete para transportar os ovos directamente para as caixas. E estão constantemente a comer, sempre com luz acesa para julgarem que é dia, e a pôr ovos!
É maquiavélico, pois é. E depois vendem esses ovos e essa carne mais baratos, porque os pobres comem tudo!
Mas podemos defender-nos, se soubermos distinguir o Bom do Mau!
Ora vão lá ao frigorífico buscar um ovo e reparem nos dizeres do carimbo.
Primeiro tem a data de validade, por baixo tem uns algarismos e na terceira linha tem um algarismo (0,1,2,3).
O meu tem: 1PT5 - 028. (PT  é português, 28 é a semana em que foi posto).
Se começar por 0 significa que é de galinhas criadas à solta no campo.
Se começar por 1, é porque é de galinhas de capoeira. É o caso do meu.
Mas se começar por 2 ou 3 é de aviário e de galinhas em stress.
Se puderem, evitem comprar ovos com o 3PT. As galinhas que os põem estão em sofrimento!
Como é de calcular, não é nada fácil verificar este código. Terão de abrir as caixas, com cuidado, claro.
E cheguei à conclusão que andamos a ser muito enganadas!
São ovos com ómega 3, caríssimos, e depois lá dentro tem 3PT...
São ovos que dizem ser de galinhas do campo, e lá dentro tem 3PT...
Os únicos que encontrei até hoje com 1PT (0 ainda não vi em lado nenhum), são os Matinados.
São pequenos, é certo, mas não têm hormonas de crescimento das galinhas.
E se um for pouco, cozinham-se dois, he,he!
E para terminar, tenho um pedido a fazer-vos: quando forem às compras, reparem nas marcas dos ovos e nesta referência. Se virem alguns 0PT ou 1PT, escrevam o nome da marca e digam-me, que eu acrescentarei aqui. Não quero ser injusta para ninguém...
Um bom fim de semana para todos quantos visitarem o Meu Estaminé!
Beijinhos da

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima

ESTÁ A CHEGAR O OUTONO!

                          Cores de Outono - desenho de Sara Dias (7 anos) 

Tal como Einstein nos ensinou, tudo é relativo!
Enquanto as nossas Amigas do Brasil, festejam a chegada da Primavera, do lado de cá do Atlântico  nós preparamo-nos para dar as boas vindas ao Outono.
Com ele amadurecem e colhem-se as frutas e fazem-se as vindimas e o vinho novo.
Este ano não se concretiza o provérbio que diz "Vindima molhada, pipa depressa despejada".
O tempo vai seco, bom para a vindima e está previsto um ano de bons vinhos.

"Setembro ou seca fontes ou leva açudes e pontes".
Este ano é capaz de ajudar a secar fontes, depois do calor que se fez sentir este Verão.
Diz-se que há 89 anos que não havia um Verão tão quente! E com os incêndios que uns tantos loucos andaram a atear, muita da pouca água se gastou...

                                       Aguarela de Sara Dias (7 anos)

"Quando não chove depois do S. Mateus (21 de Set.) é por milagre de Deus".
"Aguas verdadeiras, por S. Mateus as primeiras".
Esperemos que o S. Mateus, este ano,  faça o milagre de nos dar a água necessária para encher as fontes.
Mas que não mande toda de uma vez!


E como "Voz do Povo é voz de Deus", aqui vos deixo mais um Provérbio que ilustra bem o saber popular.
 "Pelo S. Mateus, pega nos bois e lavra com Deus". O que nos mostra que é a boa altura para preparar os campos para novas sementeiras.
"Em Setembro planta, colhe e cava que é mês para tudo, mas se for molhado, figo estragado".

E para que não se estrague a fruta, estamos no tempo das Compotas, Conservas e outros truques de conservação prolongada. Hoje deixo-vos uma receita de Conserva de Figos em Calda.
Já a fiz e gostei muito. Pode ser servida como sobremesa ou usada para enriquecer e dar gosto
a bolos ou gelados.

Conserva de Figos em Calda

2 kg de figos (impecáveis e não m.to maduros)
1 kg de açúcar branco
2 ou 3 frascos herméticos com tampa de vidro ou de metal

Lave muito bem os frascos e deixe-os escorrer, assim como as tampas, para que fiquem enxutos.
Escolha e limpe muito bem os figos de quaisquer impurezas, lave-os e seque-os bem. Coloque-os com cuidado dentro dos frascos de vidro, aconchegando-os para ocuparem bem o espaço. Encha os frascos até acima. Entretanto, misture o açúcar com 0,5 l de água, leve ao lume e deixe ferver exactamente 1 minuto.
Retire do lume e deixe arrefecer um pouco. Depois, deite a calda sobre os figos, em fio, de modo que os frascos não estalem.
Deite água numa panela larga onde caibam os frascos, coloque-lhes dentro um pano da loiça (de prato) de modo a cobrir o fundo e leve a aquecer a água até ficar à mesma temperatura dos frascos (se estiver diferente os frascos podem estalar). Meta-lhe dentro os frascos, sobre o pano, mas de modo a que a água fique a 2/3 da altura dos frascos; feche-os mas não aperte as tampas. Faça ferver a água e deixe ferver moderadamente 10 minutos. Depois, com muito cuidado, abra os frascos rapidamente e volte a fechar hermèticamente a tampa. Acabe de encher a panela com água a ferver suficiente para cobrir os frascos.
Tape-a e faça ferver mais 20 minutos para esterilizar. Passado esse tempo apague o lume e deixe arrefecer na própria água. Quando frios retire-os, enxugue-os e guarde-os com a tampa virada para baixo.

Notas: 1) Se, ao ferver, dos frascos já fechados saírem bolhas de ar, é sinal que não estão bem fechados.
2) Se algum frasco estalar ou se partir, elimine-o pois pode contaminar a fruta com pequenos pedaços de vidro. 3) Se, quando for abrir um frasco, houver compressão de ar e o sentir sair à pressão como o escape de uma conserva opada, é sinal de que a esterilização foi mal feita e deve rejeitar esse frasco. O mesmo acontece se a calda ficar turva ou se tiver um paladar diferente. Se tudo estiver bem, estas frutas podem durar um ano sem se deteriorarem.
A receita é do Chefe Silva, da Tele-culinária n° 184.

A todos quantos recomeçaram as aulas ou o trabalho, após o tempo de férias, desejo um feliz OUTONO!
Que trabalho ou estudo, seja feito com gosto e não vos pese.
Para a minha netinha S. um beijinho especial pelos seus desenhos, que me ajudaram a ilustrar as Cores do Outono.

Beijinhos da

Bombom = Tia Fátima = Avó Fátima



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