À MESA COM OS REIS - (cont.)

Para quem gostou de conhecer um pouco melhor "a mesa dos reis", vou continuar a falar-vos dela pela mão de Manuel Guimarães no livro de que já vos falei, intitulado À Mesa Com a História.

"Apesar de tudo, D. Filipa não deixou de imprimir nos costumes do Paço a marca da sua firme personalidade, vulgarizando nos banquetes reais, alguns costumes da sua casa de origem e conseguindo garantir às damas, para todo o sempre, lugar nos grandes banquetes, até então exclusivamente destinados a homens.
É bom não esquecer que D. João I (séc. XIV), autor do Livro de Montaria e ele próprio caçador apaixonado, aconselhava comida simples, em doses convenientes e nunca o abuso do vinho que ele próprio bebia, sempre terçado de água.
Tinha, segundo rezam as crónicas, um fraquinho especial pela carne de vaca que comia assada, cozida ou na desfeita (picada).
Ainda mais sóbrio do que o real progenitor, D. Duarte ignorou deliberadamente os prazeres da mesa. Foi um dos primeiros escritores a preocupar-se com o "regimento do estômago", começando o dia com um simples copo de água açucarada, uma verdadeira novidade em tão recuada e descuidada época. Ao meio dia jantava (actual almoço) vianda assada de carneiro ou carnes assadas de perna, pouca potagem (sopa), muito pouco pão. Ceava (actual jantar) às oito horas da noite outra vez vianda assada e, imaginem só, pão torrado.
Bebia vinho com água, como vira fazer a seu pai durante toda a vida e seguia à letra os conselhos do físico Morsala, médico da corte e, segundo ficou escrito, muito entendido em dietas.
D. Pedro de Alfarrobeira, que governou Portugal, como Regente, ordenou que os nossos reis passassem a tomar em público as suas refeições, não sendo esta a única novidade que o infante mártir de Alfarrobeira cobiçou no decorrer das longas e misteriosas viagens que o levaram aos quatro cantos da Europa culta do seu tempo.
D. Afonso V, que só começou a beber aos 37 anos de idade e por conselho dos médicos, não era partidário dos prazeres da mesa que só usaria na medida das necessidades, desprezando o fausto e a grandeza.
Finalmente, chegaria o "homem", D. João II. Garcia de Resende, primeiro e Rui de Pina depois, confirmam que o "Príncipe Perfeito" também o era enquanto apreciador de boa mesa. Dizem que "comia muito e muito bem, com muito vagar e cerimónia", mas só duas vezes ao dia. Elogiou a sardinha, que considerava excelente comida popular, embora pessoalmente não a apreciasse. Comia normalmente sozinho, mas à vista dos fidalgos habituais no Paço ou que nele viviam. A grandeza quando é genuína, é sempre paralela à solidão.
Embora abstémio (não tomava bebidas alcoólicas), D. João II devorava por refeição boa meia dúzia de iguarias, postas à sua disposição por uma chusma de criados receosos. Comia à mão, sofregamente. Nem sequer usava a faca pontiaguda, única peça do talher do seu tempo e que chegou até aos nossos dias na "naifa" (canivete) com que os homens das nossas aldeias cortavam o conduto sobre a fatia de pão.
D. Manuel I, que não era filho de rei, foi um monarca opulento e requintadíssimo. Morava com uma corte de cinco mil bocas, sem que ninguém lamentasse servir tão alto príncipe. Damião de Góis atribuiu-lhe grande paixão pelas coisas de açúcar. Quando estava em Lisboa, aos domingos, ia sempre merendar ao Paço de Santos-o-Velho, onde as damas se acotovelavam para encher de doçaria fina, a mesa de el-rei. Depois, passeava de barco pelo Tejo, ouvindo os seus músicos privativos que tocavam cornetas, rabecas e tamboris, para fazer a alegria deste rei que nada lhes negava.
No entanto, logo que foi informado das exageradas verbas gastas nas províncias pelos súbditos, em banquetes de casamento e baptizado, apressou-se a proibir o desaforo, limitando os convivas a membros da família. Em 1514, por Ordenação, proíbe os bodos tradicionais, com excepção dos Bodos do Espírito Santo.
D. João III, como todos os filhos de pai rico, não pôde ter história gastronómica. A opulência à mesa mantém-se naturalmente, quer o rei esteja em Lisboa quer permaneça com demora, no seu sumptuoso Convento de Tomar.
D. Sebastião, o príncipe do fim, ainda chega a ordenar que nenhuma pessoa possa comer à sua mesa mais que um assado ou um cozido  e um picado ou desfeito, arroz ou cuscuz e nenhum doce como o manjar-branco ou bolos de rodilha.
Supomos que tal Ordenação tenha caído em saco roto, como em saco roto cairia o País por espaço de mais de meio século."

Partilho convosco estas curiosidades históricas à volta da Mesa, por não ser muito fácil encontrá-las.
Não podemos esquecer-nos de que eram outros os tempos e os costumes e de que, por exemplo o garfo, só apareceu na corte portuguesa em 1836 ( D. Maria II ). Falaremos disso um dia destes.
E, como a prosa já vai longa, ficam aqui umas receitinhas rápidas de Patés para rechear tapas ou para bolachinhas de água e sal, que podem servir de entrada a uma qualquer refeição.

Paté de Presunto

3/4 de chávena de presunto picadinho
1/2 cebola pequena picada
1/2 chávena de maionese
pimenta preta moída na hora

Pique todos os ingredientes com a varinha mágica durante 1 minuto. Retire para uma tigela, mexa e está pronto a usar.

Paté de Atum

1/2 chávena de maionese
1 lata de atum, escorrido e desfiado com o garfo
1/2 cebola picada
1 colher de sopa de salsa picada (salsinha)
sumo de 1/4 de limão

Desfie bem o atum. Junte todos os ingredientes numa tigela e mexa muito bem.

Paté de Camarão

1/2 chávena de maionese
2 colheres de sopa de natas
1 colher de sopa de tomate Ketchup
1/2 cebola picada
1 ovo cozido pequeno
sumo de limão q.b.
1 raminho de salsa picada (salsinha)
molho picante q.b.

Pique muito bem os camarões e o ovo cozido. Misture tudo e rectifique de sal e picante.
Em todos os casos, guarde em tacinhas ou tigelinhas no frigorífico, cobertas com película aderente, até ao momento de servir.

Com desejos de uma boa semana para todos, beijinhos da

Bombom  (Tia Fátima ou Avó Fátima)

À MESA COM OS REIS

Depois de uns dias em "silêncio", cá estou de novo para vos falar um pouco de História. Não da história das comidas, mas das Comidas e dos Hábitos de Comer na História de Portugal.
Eu já tinha ouvido dizer (ou lido algures) que a rainha D. Filipa de Lencastre, mulher de D. João I, tinha vindo encontrar uma corte primitiva e abrutarrada, quando veio para Portugal. Ora parece que afinal não era nada assim! E para prová-lo, vou transcrever um pouco do livro de Manuel Guimarães, À Mesa Com a História.

"São conhecidos os regulamentos e as organizações em vigor nas cortes dos reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques, garantidos por oficiais-mores, responsáveis pelo bom funcionamento da vida palaciana, sem descurar a vida íntima da família reinante, nem sacrificar os direitos do povo no acesso ao soberano.
D. Sancho I bebia por copa de oiro, da qual mandaria fazer uma cruz e um cálice, furtando-se assim à ira de Deus e do Papa Inocêncio III, que o acusava de manter em casa uma bruxa, com a qual se aconselhava em assuntos de Estado. No reinado seguinte, D. Afonso II vê-se na necessidade de criar, por decreto, em 1211, um "uchão", funcionário responsável pelos víveres, e um "escanção", encarregado da copa real, também chamado copeiro, patrão de todas as bebidas.
Cabe no entanto ao senhor D. Afonso III (o Bolonhês), o gigantesco príncipe que se dizia ser português pela vida e francês pela comida, a grande reforma da corte dos afonsinhos portugueses. O paço tinha nesta altura padeira privativa - a regueifeira d`el-rei - e um trem de cozinha que exigia nada menos de quatro mulas para carregar tachos, panelões e trinchantes, quando a corte viajava pelas terras de um Portugal recém-nascido.
Não seria numerosa a corte portuguesa no reinado de D. Afonso III. Em 12 anos - de 1258 a 1270 - o rei gastou na sua casa 1845 vacas (8 por mês), 5163 porcos (23 por mês), mais de 10000 carneiros, além do peixe fresco e seco, destinado aos dias magros, o que abona o apetite dos que tinham o privilégio de comer à mesa do rei, por certo inventores do ditado popular: "melhor é migalha de Rei que mercê de Senhor".
Depois veio o rei-poeta, D. Dinis, cantor e cortesão, casado com a Rainha Santa (D. Isabel de Aragão).
Enquanto a esposa jejuava duas partes do ano a pão e água e, no tempo restante, só comia uma refeição diária, o régio esposo dava grandes banquetes no Paço da Alcáçova, onde se comia à mão em baixela de oiro e prata que o rei menciona no testamento, "entre copas, vasos e pichéis, escudelas, bacios e talhadores, companheiros dos prazeres deste mundo e que ninguém, até hoje, conseguiu transferir para o Além".
Menos poeta e por isso menos requintado, o filho da Rainha Santa e do trovador D. Dinis, comia na cama e comia prodigiosamente, o que muito impressiona Mr. Robert Southwell, um anémico embaixador inglês, que não achou maior maravilha em terra portuguesa do que a gula de D. Afonso IV.
Outro protagonismo histórico reservava o destino a seu filho e sucessor, D. Pedro I. Fernão Lopes, um cronista que deixou escritas duras verdades sobre as manhas deste rei, classificou-o como viandeiro, "sem ser comedor mais que homem". Gostava de festejar na rua com o povo, mandando assar vacas inteiras, distribuir montanhas de pão e vinho que chegasse para aguentar uma noite inteira de festas e de danças.
Com D. Fernando, adivinhava-se em tudo, até na mesa, a crise em que o fraco rei lançava a nação. O rei era pouco dado a comidas, embora fosse o primeiro a comer em mesa de estrado, mais alta do que as mesas dos restantes convidados.
Assim se vê que D. Filipa de Lencastre não teria encontrado na corte portuguesa o tal atraso repugnante que alguns pretendem."

E para terminar deixo-vos uma receita fácil, rápida e muito gostosa, para um bolo que poderão fazer para o lanche de um destes dias de férias de Carnaval.

Bolo de Natas

4 ovos
igual peso de açúcar
igual  peso de farinha
1 colher de chá de fermento em pó (Royal)
1 chávena de natas (creme de leite - Br.)

 Ligue o forno a 180°. Junte a fermento à farinha e reserve. Unte uma forma redonda.
Bata os ovos com o açúcar até obter um creme grosso e esbranquiçado. Junte de vagar as natas e vá envolvendo com a colher de pau. Com a ajuda de um passador de rede vá deitando a farinha, em chuva e envolvendo cuidadosamente a massa. Deite na forma barrada com margarina e leve ao forno por 25 a 30 minutos. Faça o teste do palito.

Notas:
- Uso natas Longa Vida (1 pacote)
- Gosto de bater as natas em chantilly, com 2 ou 3 colheres de açúcar. Depois envolvo no creme de ovos e a seguir envolvo a farinha. Fica sempre bem!

Tenham um óptimo fim de semana com muita alegria e paz.

Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

COZINHAR É INVENTAR!... FRANGO NO FORNO

Hoje apetecia-me dar um título mais maluco a este post. Assim como ...Maluquices na Cozinha.
Tinha um peito de frango à frente e apetecia-me uma coisa diferente do habitual.

" Numa chávena misturei 2 colheres de sopa de azeite, 1 dente de alho grande, espremido, 1 colher de sobremesa de molho de soja e outra de vinagre balsâmico, 1 colher de chá de gengibre em pó, 1 colher de sobremesa de Flor de Sal aromatizada com tomilho e chilly. Levantei um pouco a pele do frango e barrei por baixo com esse creme, e fiz o mesmo do outro lado. Coloquei o frango numa assadeira e reguei-o com um cálice de vinho do Porto. Acrescentei uma cebola média partida aos quartos, 6 azeitonas grandes descaroçadas e uma chávena de caldo de carne.
Levei ao forno pré- aquecido e daí a 10 minutos acrescentei o sumo de meia laranja. Ao fim de 45 minutos estava pronto, mas a meio da cozedura rectifiquei de sal e reguei-o com o próprio molho.
Entretanto fritei uma batata doce às rodelas grossas e outra normal aos  quartos.
Tirei o frango do forno e juntei-lhe de um lado as rodelas de batata doce e do outro os quartos de batata normal. Servi com salada de alface e cebola vermelha."


E o resultado, foi uma agradável surpresa. Delicioso! E gostoso de ouvir o comentário final:
- Um opíparo almoço!

Nota: O sal aromatizado é muito fácil de fazer e está sempre à mão. Devem guardá-lo em frasco tapado, no armário. É óptimo para temperar na hora, bifes, costeletas, escalopes e marinadas. (Já publiquei a receita, é só procurarem).
Desta vez não há fotos. O Provador oficial,  a meio da refeição perguntou:
- Não pões esta receita no teu Estaminé?
Nessa altura já era tarde para fotografar. A assadeira estava vazia, he,he!
Ficará para uma próxima, prometo.

Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

MAR REVOLTO ...E PEIXE ASSADO

                            Cabo da Roca visto do Guincho

Na passada quarta-feira, o dia amanheceu muito farrusco e ventoso.
O Noticiário anunciava  o cancelamento de todos os portos marítimos da nossa costa. Havia Alerta Laranja para toda a costa Oeste e Sul, do país.
Conforme o dia pedia, preparei uma refeição no forno, para o almoço: Goraz Assado com batata e cenoura.
Estava muito bom e recebi calorosos elogios que me deixaram toda contente! Nem me lembrei de tirar umas fotos para registar!
Após o almoço, resolvemos ir ver o Mar. Devia ser um espectáculo!


Quando chegámos ao Guincho, o Oceano espumava raivoso. As ondas alterosas iam e vinham, erguendo-se em fúria ao sabor das fortes rajadas do vento. Era o Mar imponente, em toda a sua força.
Fiquei a imaginar a vista lá de cima, do Cabo da Roca, "onde a Terra acaba e o Mar começa"!...Que o mesmo é dizer, "na ponta mais ocidental da Europa". (Se algum dia por lá passarem, não deixem de comprar o Diploma que o atesta, com fita e chancela em selo de lacre, uma recordação por 5 euros).

                    Mar revolto, visto da costa da Guia
Quando chegámos à Boca do Inferno, avistámos 4 grandes navios ao longe, esperando que o temporal amainasse e que o Porto de Lisboa abrisse, para poderem entrar a Barra.
A passagem estava vedada por causa do perigo, mas dava para ver cá de cima a fúria do mar contra os rochedos, neste local também conhecido pelo nome de Poço do Inferno.

                Boca do Inferno ou Poço do Inferno (Cascais)

Goraz Assado no Forno

1 goraz médio temperado com sal
2 batatas médias
2 cenouras
1 dente de alho gde.
1 cebola média
1 e 1/2 colher de sopa de conserva de coentros (2 colh. de sopa de azeite virgem)
1 colher de chá de molho de soja
1 colher de sobremesa de vinagre balsâmico
1 colher de chá de salva seca (ou tomilho)
1 folha de louro (sem nervura)
1 cálice de vinho da Madeira
1 colher de chá de flocos de chilly seco (ou 1 colher de sobremesa de molho picante)
1 chávena de caldo quente (da fervura dos legumes)

Ponha ao lume um tacho com água temperada com um pouco de sal. Entretanto descasque as batatas e as cenouras. Parta as batatas aos quartos e as cenouras em rodelas grossas. Quando a água ferver, introduza -os e conte 5 minutos. Apague o lume e, com a ajuda de uma escumadeira, retire a batata e a cenoura e reserve o caldo.
Num tabuleiro de ir ao forno deite o azeite ou a conserva de coentros. Faça "uma cama" com metade do alho picado, metade da cebola em meias luas, o louro partido ao meio. Coloque o goraz. Salpique com o restante alho picado e a cebola, junte a salva e ponha em volta as batatas e a cenoura. Numa tigela, junte o caldo, o Vinho da Madeira, o molho de soja e o vinagre balsâmico e os flocos de chilly (ou molho picante) e regue tudo. Prove o molho para ver se precisa de rectificar os temperos. Leve ao forno pré- aquecido por cerca de 45 minutos a 1 hora.
De vez em quando, refresque o assado com o próprio molho. Se for necessário, a meio do tempo, cubra com uma folha de papel de alumínio para não queimar.

Desejo a todos um óptimo fim de semana, que parece que vai ser mais ameno e com Sol.
Sol nos corações!
Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

BIFES, REIS À MESA

Sim, eu sei, hoje é dia de S. Valentim ou Dia dos Namorados.
Eu não ligo muito para esses dias institucionalizados pelo sr. Comércio. Por isso para mim, dia dos namorados é sempre que recebo flores ou mimos do meu maridinho (he,he). O meu dia dos namorados calha a 19 de Julho, o dia em faz anos que me casei. Mas acho muito bem que quem aprecia, comemore hoje em especial.
E como neste dia há por aí muitas receitas de lindas e doces sobremesas, eu vou continuar no "prato forte" que é o Bife, pois fica bem em qualquer mesa de festa.
Hoje vou falar-vos de um outro bife célebre na cidade de Lisboa antiga.

"Nem só dos Marrare reza a história. Onde é hoje a Livraria Sá da Costa, no topo do Chiado, funcionou até 1875 o lendário Café Central, onde Antero (de Quental), Eça, (de Queirós), Adolfo Coelho, Batalha Reis e Salomão Saragga redigiram e assinaram o violento protesto contra o governo que amordaçou as Conferências do vizinho Casino Lisbonense.
Fundado e gerido por um tal Domingos António, conhecido e reconhecido pela casaca impecável e pelo chapéu alto que manteve até ao fim da vida, o Central inaugurou em Lisboa - e também aqui, quem diz Lisboa, diz Portugal - o serviço completo de restaurantes, nos cafés, até então desconhecido entre nós.
Famoso pelo linguado frito e pela arte de grelhar o rim, os bifes do Central não deixaram de ter os seus fiéis apreciadores, entre os quais se contavam Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo, que fizeram do popular café uma das praças fortes da sua poesia, dos seus protestos e do seu apetite. E se hoje é de lamentar a perda da receita que serviu de base a tão famosos bifes e os manteve durante anos nos tops da gula alfacinha, contentemo-nos com esta história de proveito e exemplo: passado que foi desta vida o solícito encasacado Domingos António, quis sua senhora, viúva e herdeira, dotar o Central de gerente a condizer com o prestígio do afamado estabelecimento.
A escolha da chorosa viúva viria a recair, infelizmente, sobre reconhecido madraço que, pouco dado a canseiras de cozinha, mandava buscar os bifes à taberna do Baldanza, à Rua Nova dos Mártires, servindo-os em louça do Central. Descoberto pelos clientes, o histórico Central não resistiu ao contrabando e faliu, irremediavelmente. Nem nos bifes, o crime compensa!"
               Do livro À Mesa Com a História, de Manuel Guimarães.

E agora, para que quem gosta "destas coisas da História" se delicie, aqui fica uma das mais antigas receitas portuguesas de Bife.
"A Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, cuja primeira edição, de 1680, corporiza o primeiro livro da especialidade impresso em português, inclui uma curiosa receita  cujo produto é, sem tirar nem pôr, igual ao que, um século depois (1822), os ingleses oferecem ao mundo sob o nome de beefsteack.
Eis a receita: tomarão um lombo e o farão em talhadas muito delgadas e as frigirão em toucinho, meio fritas e depois lhe botarão pimenta e uma pequena colher de farinha torrada, 4 gemas de ovos de sorte que engrosse o caldo, o qual há-de ser de duas colheres. Vai à mesa sobre fatias".

Traduzindo "por miúdos", vou pôr isto de maneira que todos os interessados percebam (he,he).

Bife à Moda Antiga (baptizei-o eu!)

Dose individual

1 bife do lombo (vazia)
Fatias de toucinho 
1 colher de chá de farinha torrada
1 gema de ovo
2 colheres de sopa de caldo de carne

Numa frigideira de ferro ou de aço inoxidável de  fundo grosso, fritam-se as fatias de toucinho. Junta-se o bife e deixa-se fritar bem de um lado e de outro. Tempera-se com a pimenta. Retira-se o bife para um prato aquecido e reserva-se. Junta-se ao molho a colher de farinha torrada mexendo bem e depois o caldo de carne temperado de sal. Logo que o molho engrosse, junta-se o bife com os sucos que largou. Sacode-se um pouco a frigideira e retira-se do lume. Serve-se sobre fatias de pão frito.

E agora desejo que tenham um bom jantar para comemorar e celebrar o Amor!
Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

COMIDAS COM HISTÓRIA - BIFE À MARRARE

Depois de uma breve ausência devida apenas à inércia fria que se apoderou de mim nestes dias de Inverno, cá estou eu de novo a abrir O Meu Estaminé.
Estava eu a ler o livro de Manuel Guimarães "À Mesa com a História" e achei interessante esta passagem que resolvi partilhar convosco. Trata das origens do Bife à Marrare, tão conhecido na cidade de Lisboa, como famoso ficou ao figurar em muitos livros de Culinária.

"António Marrare, foi um napolitano contratado no último quartel do séc. XVIII ( cerca de 1775), pelo faustoso marquês de Nisa, como copeiro privativo.
Profundo conhecedor do seu ofício, o italiano cedo se apercebe da magnífica oportunidade que lhe oferecia esta bela Lisboa, de sórdidas baiúcas, onde ainda faltavam os botequins de luxo que a Europa já conhecia e gostosamente frequentava.
António Marrare despede-se dos Senhores de Nisa e abre, num ápice, dois magníficos botequins, onde a Lisboa elegante e endinheirada acorreu, atraída pelos talheres de boa prata de lei, pela pureza do café moka e pelas bebidas importadas, adereços de uma apetitosa cozinha italiana que o gerente conhecia na perfeição.
Seria, porém, o bife, o célebre Bife à Marrare inventado e servido por este pioneiro dos restaurantes modernos, o que melhor cairia no goto do lisboeta, resistindo nalguns cardápios de restaurantes, há quase dois séculos, sem sombra de cansaço.
Era alto e cortado do pojadouro. Fritava-se em manteiga numa frigideira de ferro, mantendo-se até que a carne ganhasse cor, conservando-se por dentro mal passada. Nesta altura, temperava-se com sal, substituía-se a manteiga na frigideira e continuava-se a operação a lume brando. Ao suco da carne, juntava-se pouco depois duas colheres de natas, deixando reduzir até à consistência desejada. As batatas fritas, encapotadas num guardanapo de pano forte, serviam-se ao lado.
O napolitano, seus familiares e sucessores, serviam pessoalmente este magnífico bife à Lisboa culta e aventureira, até que, em 1866, o último botequim dos Marrare se apagou de vez, para dar lugar a uma prosaica sapataria, amputando Lisboa de um marco histórico inesquecível. Felizmente, salvaram-se os bifes."

Bife à Marrare

Por pessoa:
1 bife alto do pojadouro (200g)
80g de manteiga (ou margarina)
3 colheres de sopa de natas
sal q.b.
pimenta preta em grão q.b.

Numa frigideira de ferro ou aço forte,derrete-se em lume vivo metade da manteiga ou margarina. Quando estiver bem quente, introduz-se o bife e deixa-se alourar de um dos lados. Vira-se o bife sem o picar e aloura-se do outro lado. Esta operação, que deve ser relativamente rápida, tem por fim evitar que o suco da carne saia. Tempera-se com sal grosso e pimenta moída na altura.
Escorre-se da frigideira a gordura em que o bife fritou (conservando o bife) e junta-se a restante manteiga. Reduz-se a chama e deixa-se cozer o bife durante uns minutos, agitando a frigideira. Adicionam-se as natas e deixa-se engrossar o molho, continuando a agitar a frigideira.
Coloca-se o bife num prato aquecido e rega-se com o molho. Serve-se acompanhado com batatas fritas em palitos, dentro de um prato coberto por um guardanapo.

Esta receita é do livro Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lurdes Modesto. Em nota final, ela refere que este bife era servido no princípio do século passado, no célebre Marrare das Sete Portas, propriedade "de um homem de requinte, nascido na Galiza e de apelido Marrare".

Portanto é bem possível que com o passar dos tempos ele tenha mudado "de mãos", mas mantendo sempre o mesmo espírito de requintado bom gosto.

Achei curioso, porque no Livro de Pantagruel, embora a receita seja exactamente a mesma, refere que "se reserva a gordura em que se faz a primeira fritura do bife. Na segunda fritura com nova manteiga, depois de acrescentadas as natas, junta-se a gordura reservada e engrossa-se o molho".

Desejo a todos um óptimo fim de semana. Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

CROCANTES DE QUEIJO CHÈVRE COM MEL E AMÊNDOAS

Uns dias antes do Ano Novo, liguei o aparelho de televisão e dei "de caras" com o Chef  Hélio Loureiro, cujo trabalho muito aprecio. Estava ele a ensinar a fazer uma Entrada com muito requinte:

Crocante de Queijo Chèvre com Mel e Amêndoas

Ingredientes:

8 folhas de massa "brick"
3 ou 4 Pêras rocha
2 cebolas
1/2 litro de Vinho do Porto
2 colheres cheias de mel
coentros picados q.b.
1 queijo chèvre (redondo e comprido)
Geléia de marmelo q.b.
Óleo para fritar

Picam-se as cebolas para um tacho, junta-se o vinho do Porto e leva-se ao lume até cozer a cebola (caramelizar) e reduzir o líquido. Reserva-se.
Noutro tacho deitam-se 2 boas colheradas de mel e leva-se  ao lume a derreter.
De seguida junta-se a pêra descascada e cortada aos gomos (oitavos) e as amêndoas. Mexe-se e deixa-se caramelizar até tomar cor. Acrescenta-se um pouco de coentros picados e mexe-se para não queimar e corar por igual.
Nesta altura deita-se parte ( cerca de 2/3) da redução do molho de cebola e vinho do Porto e mistura-se bem. Reserva-se o restante para decorar.
Abrem-se as folhas de massa "brick" e no meio de cada uma colocam-se 2 fatias grossas de queijo chèvre.
Dobra-se em envelope e pincela-se com manteiga derretida na ponta da última dobra para selar.
Fritam-se as almofadinhas de massa "brick" em óleo bem quente e escorrem-se bem em papel absorvente.

Para empratar:
Num prato individual deitam-se 2 colheres de pêra caramelizada. Por cima coloca-se a "almofada" de queijo chèvre. Enfeita-se com o Molho de Cebola e vinho do Porto e por cima verte-se um pouco de Geleia de Marmelo.

Aqui vos deixo a receita, com as devidas honras para o Chef Hélio Loureiro.
Ainda não a experimentei porque ainda não encontrei a massa Brick, mas logo que a encontre, não me escapa!
 Desejo-vos uma boa semana, com tudo a correr pelo melhor!
Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)