O GARFO...E BOLACHINHAS LEVES

Ao analisarmos a "mesa dos reis", ficamos com a ideia de que eles eram uns grandes brutos e alarves. Não podemos, no entanto, esquecer-nos de que nesse tempo ainda só existiam as facas.
A potagem (sopa) era servida em malgas e era bebida ou sorvida, o que vem dar ao mesmo.
A faca era usada para partir os pedaços da carne que cada um comia à mão.
Limpavam-se as mãos ao pêlo dos cães ou às mangas e "fraldas" das camisas. E não era só na corte portuguesa, era em muitas das cortes da Europa.
Só com o tempo é que se foram civilizando os costumes e educando as pessoas.
O garfo só chegou à Europa no séc.XI, concretamente à cidade de Veneza. Teodora, filha de Constantino VIII Imperador do Oriente, veio de Constantinopla para casar com o Doge de Veneza, Doménico Selvo e trouxe no seu enxoval um garfo de oiro com 2 dentes, com que comia as frutas cristalizadas.
Pouco depois, a população da cidade assimilou o garfo. Como era uma cidade muito cosmopolita, depressa esse uso se espalhou para Milão e Florença. O talher já era conhecido em Itália no séc. XV.
A sua introdução na Europa não foi fácil pois o garfo fazia lembrar a forquilha ou forcado, instrumento de trabalho do campo que estava associado à imagem do Diabo.
Foi a italiana Catarina de Médicis, que casou com Henrique II de França no séc. XV, que introduziu o garfo na corte e o tornou num objecto de requinte.
A Inglaterra só chegou em meados do séc. XVII, levado pelo viajante Thomas Coryat.
Em Portugal o seu uso só começou em 1836, com a rainha D. Maria II, filha de D. Pedro I do Brasil. Foi o marido, D. Fernando II de Portugal (Fernando de Saxe-Coburgo-Gota) que a convenceu a usar o novo talher.
Entre a sua introdução na Europa e o final do séc. XVII, surgiu o 3° dente. O 4° dente parece ter surgido na segunda metade do séc. XVII, para atender ao Rei Fernando II das Duas Sicílias (Fernando de Bourbon) que não gostava dos fios compridos do esparguete a escorregarem nos garfos de 3 dentes.

Tudo isto aprendi na Wikipédia e na net.
E agora vou oferecer-vos uma receita rápida e fácil de Bolachinhas Leves, tipo água e sal, para poderem usar com os Patés de ontem. Foram ambas tiradas da Tele Culinária do Chefe Silva, do número Especial de Verão de 1984.


Bolachinhas Leves

150g de farinha de trigo
100g de margarina
1 ovo pequeno
1 colher de café de sal fino.

Amasse tudo e estenda a massa com o rolo. Corte as bolachinhas dos tamanhos e feitios que desejar e coloque-as num tabuleiro forrado com papel vegetal (uso Glad).
Leve a cozer em forno bastante quente (180°).
Nota: Na receita não vem indicado o tempo de cozedura, mas deve ser à volta dos 10 a 15 minutos.

Nota 2: 
- Depois de amassar, precisei de acrescentar 1 colher de sopa de farinha, para a massa ficar mais consistente.
- Achei a massa demasiado salgada para meu gosto e acrescentei 2 colheres de sopa de açúcar amarelo.
- Deixei repousar no frigorífico por 30 minutos.
- As bolachinhas ficaram prontas em 12 minutos.
- São muito crocantes e estaladiças. Ideais para servir com doce ao lanche, à sobremesa ou com o café.

O Meu Estaminé vai estar "fechado" por uma semana. Vou voar como as Borboletas, brincar com os meus netinhos e sonhar núvens cor de rosa! Voltarei daqui a uma semana, com todas as novidades!
Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)

À MESA COM OS REIS - (cont.)

Para quem gostou de conhecer um pouco melhor "a mesa dos reis", vou continuar a falar-vos dela pela mão de Manuel Guimarães no livro de que já vos falei, intitulado À Mesa Com a História.

"Apesar de tudo, D. Filipa não deixou de imprimir nos costumes do Paço a marca da sua firme personalidade, vulgarizando nos banquetes reais, alguns costumes da sua casa de origem e conseguindo garantir às damas, para todo o sempre, lugar nos grandes banquetes, até então exclusivamente destinados a homens.
É bom não esquecer que D. João I (séc. XIV), autor do Livro de Montaria e ele próprio caçador apaixonado, aconselhava comida simples, em doses convenientes e nunca o abuso do vinho que ele próprio bebia, sempre terçado de água.
Tinha, segundo rezam as crónicas, um fraquinho especial pela carne de vaca que comia assada, cozida ou na desfeita (picada).
Ainda mais sóbrio do que o real progenitor, D. Duarte ignorou deliberadamente os prazeres da mesa. Foi um dos primeiros escritores a preocupar-se com o "regimento do estômago", começando o dia com um simples copo de água açucarada, uma verdadeira novidade em tão recuada e descuidada época. Ao meio dia jantava (actual almoço) vianda assada de carneiro ou carnes assadas de perna, pouca potagem (sopa), muito pouco pão. Ceava (actual jantar) às oito horas da noite outra vez vianda assada e, imaginem só, pão torrado.
Bebia vinho com água, como vira fazer a seu pai durante toda a vida e seguia à letra os conselhos do físico Morsala, médico da corte e, segundo ficou escrito, muito entendido em dietas.
D. Pedro de Alfarrobeira, que governou Portugal, como Regente, ordenou que os nossos reis passassem a tomar em público as suas refeições, não sendo esta a única novidade que o infante mártir de Alfarrobeira cobiçou no decorrer das longas e misteriosas viagens que o levaram aos quatro cantos da Europa culta do seu tempo.
D. Afonso V, que só começou a beber aos 37 anos de idade e por conselho dos médicos, não era partidário dos prazeres da mesa que só usaria na medida das necessidades, desprezando o fausto e a grandeza.
Finalmente, chegaria o "homem", D. João II. Garcia de Resende, primeiro e Rui de Pina depois, confirmam que o "Príncipe Perfeito" também o era enquanto apreciador de boa mesa. Dizem que "comia muito e muito bem, com muito vagar e cerimónia", mas só duas vezes ao dia. Elogiou a sardinha, que considerava excelente comida popular, embora pessoalmente não a apreciasse. Comia normalmente sozinho, mas à vista dos fidalgos habituais no Paço ou que nele viviam. A grandeza quando é genuína, é sempre paralela à solidão.
Embora abstémio (não tomava bebidas alcoólicas), D. João II devorava por refeição boa meia dúzia de iguarias, postas à sua disposição por uma chusma de criados receosos. Comia à mão, sofregamente. Nem sequer usava a faca pontiaguda, única peça do talher do seu tempo e que chegou até aos nossos dias na "naifa" (canivete) com que os homens das nossas aldeias cortavam o conduto sobre a fatia de pão.
D. Manuel I, que não era filho de rei, foi um monarca opulento e requintadíssimo. Morava com uma corte de cinco mil bocas, sem que ninguém lamentasse servir tão alto príncipe. Damião de Góis atribuiu-lhe grande paixão pelas coisas de açúcar. Quando estava em Lisboa, aos domingos, ia sempre merendar ao Paço de Santos-o-Velho, onde as damas se acotovelavam para encher de doçaria fina, a mesa de el-rei. Depois, passeava de barco pelo Tejo, ouvindo os seus músicos privativos que tocavam cornetas, rabecas e tamboris, para fazer a alegria deste rei que nada lhes negava.
No entanto, logo que foi informado das exageradas verbas gastas nas províncias pelos súbditos, em banquetes de casamento e baptizado, apressou-se a proibir o desaforo, limitando os convivas a membros da família. Em 1514, por Ordenação, proíbe os bodos tradicionais, com excepção dos Bodos do Espírito Santo.
D. João III, como todos os filhos de pai rico, não pôde ter história gastronómica. A opulência à mesa mantém-se naturalmente, quer o rei esteja em Lisboa quer permaneça com demora, no seu sumptuoso Convento de Tomar.
D. Sebastião, o príncipe do fim, ainda chega a ordenar que nenhuma pessoa possa comer à sua mesa mais que um assado ou um cozido  e um picado ou desfeito, arroz ou cuscuz e nenhum doce como o manjar-branco ou bolos de rodilha.
Supomos que tal Ordenação tenha caído em saco roto, como em saco roto cairia o País por espaço de mais de meio século."

Partilho convosco estas curiosidades históricas à volta da Mesa, por não ser muito fácil encontrá-las.
Não podemos esquecer-nos de que eram outros os tempos e os costumes e de que, por exemplo o garfo, só apareceu na corte portuguesa em 1836 ( D. Maria II ). Falaremos disso um dia destes.
E, como a prosa já vai longa, ficam aqui umas receitinhas rápidas de Patés para rechear tapas ou para bolachinhas de água e sal, que podem servir de entrada a uma qualquer refeição.

Paté de Presunto

3/4 de chávena de presunto picadinho
1/2 cebola pequena picada
1/2 chávena de maionese
pimenta preta moída na hora

Pique todos os ingredientes com a varinha mágica durante 1 minuto. Retire para uma tigela, mexa e está pronto a usar.

Paté de Atum

1/2 chávena de maionese
1 lata de atum, escorrido e desfiado com o garfo
1/2 cebola picada
1 colher de sopa de salsa picada (salsinha)
sumo de 1/4 de limão

Desfie bem o atum. Junte todos os ingredientes numa tigela e mexa muito bem.

Paté de Camarão

1/2 chávena de maionese
2 colheres de sopa de natas
1 colher de sopa de tomate Ketchup
1/2 cebola picada
1 ovo cozido pequeno
sumo de limão q.b.
1 raminho de salsa picada (salsinha)
molho picante q.b.

Pique muito bem os camarões e o ovo cozido. Misture tudo e rectifique de sal e picante.
Em todos os casos, guarde em tacinhas ou tigelinhas no frigorífico, cobertas com película aderente, até ao momento de servir.

Com desejos de uma boa semana para todos, beijinhos da

Bombom  (Tia Fátima ou Avó Fátima)

À MESA COM OS REIS

Depois de uns dias em "silêncio", cá estou de novo para vos falar um pouco de História. Não da história das comidas, mas das Comidas e dos Hábitos de Comer na História de Portugal.
Eu já tinha ouvido dizer (ou lido algures) que a rainha D. Filipa de Lencastre, mulher de D. João I, tinha vindo encontrar uma corte primitiva e abrutarrada, quando veio para Portugal. Ora parece que afinal não era nada assim! E para prová-lo, vou transcrever um pouco do livro de Manuel Guimarães, À Mesa Com a História.

"São conhecidos os regulamentos e as organizações em vigor nas cortes dos reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques, garantidos por oficiais-mores, responsáveis pelo bom funcionamento da vida palaciana, sem descurar a vida íntima da família reinante, nem sacrificar os direitos do povo no acesso ao soberano.
D. Sancho I bebia por copa de oiro, da qual mandaria fazer uma cruz e um cálice, furtando-se assim à ira de Deus e do Papa Inocêncio III, que o acusava de manter em casa uma bruxa, com a qual se aconselhava em assuntos de Estado. No reinado seguinte, D. Afonso II vê-se na necessidade de criar, por decreto, em 1211, um "uchão", funcionário responsável pelos víveres, e um "escanção", encarregado da copa real, também chamado copeiro, patrão de todas as bebidas.
Cabe no entanto ao senhor D. Afonso III (o Bolonhês), o gigantesco príncipe que se dizia ser português pela vida e francês pela comida, a grande reforma da corte dos afonsinhos portugueses. O paço tinha nesta altura padeira privativa - a regueifeira d`el-rei - e um trem de cozinha que exigia nada menos de quatro mulas para carregar tachos, panelões e trinchantes, quando a corte viajava pelas terras de um Portugal recém-nascido.
Não seria numerosa a corte portuguesa no reinado de D. Afonso III. Em 12 anos - de 1258 a 1270 - o rei gastou na sua casa 1845 vacas (8 por mês), 5163 porcos (23 por mês), mais de 10000 carneiros, além do peixe fresco e seco, destinado aos dias magros, o que abona o apetite dos que tinham o privilégio de comer à mesa do rei, por certo inventores do ditado popular: "melhor é migalha de Rei que mercê de Senhor".
Depois veio o rei-poeta, D. Dinis, cantor e cortesão, casado com a Rainha Santa (D. Isabel de Aragão).
Enquanto a esposa jejuava duas partes do ano a pão e água e, no tempo restante, só comia uma refeição diária, o régio esposo dava grandes banquetes no Paço da Alcáçova, onde se comia à mão em baixela de oiro e prata que o rei menciona no testamento, "entre copas, vasos e pichéis, escudelas, bacios e talhadores, companheiros dos prazeres deste mundo e que ninguém, até hoje, conseguiu transferir para o Além".
Menos poeta e por isso menos requintado, o filho da Rainha Santa e do trovador D. Dinis, comia na cama e comia prodigiosamente, o que muito impressiona Mr. Robert Southwell, um anémico embaixador inglês, que não achou maior maravilha em terra portuguesa do que a gula de D. Afonso IV.
Outro protagonismo histórico reservava o destino a seu filho e sucessor, D. Pedro I. Fernão Lopes, um cronista que deixou escritas duras verdades sobre as manhas deste rei, classificou-o como viandeiro, "sem ser comedor mais que homem". Gostava de festejar na rua com o povo, mandando assar vacas inteiras, distribuir montanhas de pão e vinho que chegasse para aguentar uma noite inteira de festas e de danças.
Com D. Fernando, adivinhava-se em tudo, até na mesa, a crise em que o fraco rei lançava a nação. O rei era pouco dado a comidas, embora fosse o primeiro a comer em mesa de estrado, mais alta do que as mesas dos restantes convidados.
Assim se vê que D. Filipa de Lencastre não teria encontrado na corte portuguesa o tal atraso repugnante que alguns pretendem."

E para terminar deixo-vos uma receita fácil, rápida e muito gostosa, para um bolo que poderão fazer para o lanche de um destes dias de férias de Carnaval.

Bolo de Natas

4 ovos
igual peso de açúcar
igual  peso de farinha
1 colher de chá de fermento em pó (Royal)
1 chávena de natas (creme de leite - Br.)

 Ligue o forno a 180°. Junte a fermento à farinha e reserve. Unte uma forma redonda.
Bata os ovos com o açúcar até obter um creme grosso e esbranquiçado. Junte de vagar as natas e vá envolvendo com a colher de pau. Com a ajuda de um passador de rede vá deitando a farinha, em chuva e envolvendo cuidadosamente a massa. Deite na forma barrada com margarina e leve ao forno por 25 a 30 minutos. Faça o teste do palito.

Notas:
- Uso natas Longa Vida (1 pacote)
- Gosto de bater as natas em chantilly, com 2 ou 3 colheres de açúcar. Depois envolvo no creme de ovos e a seguir envolvo a farinha. Fica sempre bem!

Tenham um óptimo fim de semana com muita alegria e paz.

Beijinhos da

Bombom (Tia Fátima ou Avó Fátima)